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O Museu e o Viaduto

Incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro, 2018 – Tânia Rego Agencia Brasil / Fotos Públicas

Na madrugada do dia 15 de novembro de 2018 um viaduto de acesso da Marginal Pinheiros, na cidade de São Paulo, cedeu, abrindo um degrau de quase dois metros de altura. Como o ocorrido se deu de madrugada e no meio de um feriado nacional, havia poucos veículos e felizmente não foram registradas fatalidades.

Entre as diversas providências realizadas, uma delas foi localizar a documentação do projeto do viaduto, o que levou alguns dias e uma série de especulações, inclusive a de que se teria perdido ou talvez não existisse nenhum registro.

Ora, ainda com as marcas do acontecido com o Museu Nacional no Rio de Janeiro, o que podemos refletir sobre esta situação?

Todo material gerado, que tenha significado para uma sociedade, necessita de registro.

Este registro se deve se dar primeiramente por meios básicos, com arquivamento em pastas, anotações em algum caderno de tombo ou inscrição. Ou seja, de modo simples ou sofisticado, com bloco pautado e lápis ou com scanner digital de última geração, documentamos e asseguramos as informações para uso no presente e para gerações futuras.

Interessante observar que mesmo para algo prático, objetivo, a guarda da documentação de um projeto de construção que poderia ser consultado a qualquer momento, não por um pesquisador acadêmico, mas como agora, para se avaliar qual o melhor modo de fazer o reparo no viaduto, existe um olhar de pouco interesse do ponto de vista da gestão pública.

E aqui em nenhum momento há interesse em se criticar ou apontar dedos, citar nomes ou fazer algum tipo de denuncismo desnecessário. E devemos pensar gestão pública não apenas nos entes públicos, mas em toda a sociedade.

Dispomos de legislação federal, o Estatuto de Museus, que estabelece regramentos e aponta entre outras orientações, a importância dos procedimentos de registro, salvaguarda e conservação.

O segmento de arquivos também tem feito um trabalho de orientação e apoio aos municípios e governos estaduais sobre a questão dos Arquivos Públicos, também previsto em legislação que seja implantado e gerido pelas cidades.

Esclareço que abrimos mão neste momento de fazer citações de leis e bibliografias, mas sugerimos ao final do texto algumas palavras chave que podem ser pesquisadas e remeter a outras visões e opiniões, e assim ampliar o debate.

Devemos ponderar que o trabalho de registro, seja em um arquivo ou em uma coleção de um museu, é um processo de trabalho contínuo, que deve suceder gerações.

Para aqueles que trabalham diretamente, pode ser motivo de constantes descobertas e encantamentos, do sentido de contribuição para a sociedade.

E posteriormente, estes objetos e documentos devidamente identificados serão novamente analisados por outros pesquisadores, numa construção de conhecimento que pode ser levada a escalas infinitas.

Mas é um trabalho meticuloso, que demanda um longo tempo e estrutura para tanto.

Alguns museus iniciaram o processo de disponibilizar imagens de seus acervos para uso livre, como a National Gallery of Art e o Metropolitan Museum of Art nos Estados Unidos.

Vale observar que estas instituições centenárias tem sido alvo de grande soma de investimentos ao longo de suas existências, que são aplicados na conservação e documentação de suas coleções.

Este processo continuado permite a elas que possam agora, de modo consistente e sem comprometer a qualidade de suas informações, disponibilizar uma parte expressiva de imagens de obras de suas coleções como domínio público.

Ou seja, precisamos compreender sem questionamentos a necessidade do investimento continuado em museus, acervos, arquivos, bibliotecas, garantindo profissionais, equipamentos e instalações adequadas.

Superarmos o dilema das instituições que vivem a beira do fechamento, na iminência do desastre.

Entender que se estudamos a pintura, o documento antigo, o animal empalhado, também estudamos o viaduto e como evitar que ele possa cair novamente.

Tudo é parte de uma mesma máquina, a do conhecimento, que torna a sociedade digna desse nome.


Palavras Chave / Tags: museus, arquivos, documentação, registro, livro de tombo, ficha catalográfica.